Xambá

Aspeto mover para a barra lateral ocultar Ilús Abertura Religiosa (Foto: Pejigan Clô D'Oguiã)

A Nação Xambá é uma religião afro-brasileira ativa em Olinda, Pernambuco. Alguns autores, como Olga Caciatore e Reginaldo Prandi, afirmam que este culto está praticamente extinto no país.

O povo Xambá ou Tchambá habitava a região norte da região de Axânti e também a região do Planalto de Adamawa.l

História

No início da década de 1920, a perseguição política de que eram vítimas as religiões afro-brasileiras no país, levou o babalorixá Artur Rosendo Pereira, a fugir de Maceió, capital do estado de Alagoas, vindo a estabelecer-se por volta de 1923 na rua da Regeneração, no bairro de Água Fria, na cidade do Recife, em Pernambuco.

Antes desse episódio, ainda vivendo em Maceió, Rosendo havia viajado até à costa da África, onde permaneceu por quatro anos com "Tio Antônio", que trabalhava no mercado de Dacar, no Senegal, vendendo panelas, conforme narra René Ribeiro.

Rosendo iniciou muitos filhos de santo, tendo muitos deles aberto terreiro. Entre estes destacou-se Maria das Dores da Silva - "Maria Oiá" - iniciada em 1928. A saída de iaô de Maria Oiá foi realizada sem o toque dos tambores e cantada em voz baixa ainda devido à perseguição, que entretanto persistia. Pouco depois da iniciação de Maria Oiá, Rosendo voltou para Maceió.

Em 1930, Maria Oiá inaugurou o próprio terreiro, à rua da Mangueira, no bairro de Campo Grande no Recife. Com a conclusão de sua iniciação ele convocou os seus filhos de santo, os professores António Albino, Hildo Leal e João Monteiro, para elaborarem um projeto para transformar o Terreiro Portão do Gelo, no Memorial do Xambá, onde se encontram reunidos e preservados documentos fotográficos e objetos ligados à vida e à atuação daquela líder religiosa, bem como da memória do "Terreiro Santa Bárbara Nação Xambá".

Em 2004, com o falecimento de Mãe Tila, assumiu a Ialorixá Maria de Lourdes da Silva de Iemanjá, iniciada por Mãe Biu em 18 de maio de 1958.

Em paralelo ao trabalho de preservação do Memorial do Xambá, destaca-se a atuação do Grupo Bongar, formado por seis percussionistas e cantores da Nação Xambá, que realiza um trabalho de resgate e divulgação da cultura e religião Xambá e de sua dança tradicional o coco.

Orixás

Apesar de os Orixás serem praticamente os mesmos do Candomblé, existe diferença na sua forma de culto. Os orixás cultuados na tradição Xambá são:

ExuOgumOdéIbejiNanãObaluaiêIeuáXangô – Oiá – ObáAfrequetêOxumIemanjáOrixalá

Exu no Xambá

É um orixá ou um eborá de múltiplos e contraditórios aspectos, ficando difícil compreende-lo coerentemente. É astucioso, e às vezes malévolo, mas possui qualidades boas, é jovial e dinâmico. É um orixá protetor, Èsùstósìsn (Exu merece ser adorado). Exu é o guardião dos templos, casas e pessoas e os caminhos, porteiras e encruzilhadas. Serve de intermediário entre os homens e os demais orixás. Na Nação Xambá no mês de Agosto não se dá obrigações a outro orixá a não ser Exu, não se faz Yaô de Exu na Nação Xambá.

Ogum no Xambá

É o primeiro orixá a ser saudado depois que Exu é despachado. Ogum está ligado a natureza através dos metais, principalmente o ferro, por isso é conhecido como o protetor dos metais, da tecnologia e daqueles que dela utilizam-se. Nas cerimônias religiosas, em dias de toques é sempre Ogum quem sai na frente “abrindo a roda” para os outros orixás dançarem. As pessoas que são filhos desse orixá são enérgicas em seus objetivos e não desencorajam facilmente. O mês dedicado a Ogum é Abril quando se oferece rosas vermelhas e cerveja no mar para Ogum Beira Mar.

Odé no Xambá

Orixá ligado às matas, a caça, a fartura e a inteligência. Conhecido também em outras nações das religiões afro-descendentes como Oxóssi, sua importância deve-se a diversos fatores, na África tinha diversas qualidades, material, médica, administrativa, social e policial. As pessoas que tem esse orixá são espertas, ágeis, exercem com maestria cargos de liderança, são pessoas cheias de iniciativas e sempre em vias de novas descobertas. O mês dedicado a Odé é também abril, seu dia da semana é quarta-feira.

Obaluaiê no Xambá

Orixá da varíola e da doença e também da cura, é o dono dos ebós. Conhecido também como Omolu, forma mais velha desse orixá.

Os filhos desse orixá são capazes de consagrar o bem-estar dos outros, fazendo completa abstração de seus próprios interesses e necessidades vitais.

Na Nação Xambá, Obaluaiê não sai debaixo de Alá.

Xangô no Xambá

Orixá da justiça, dos raios, das pedras e do trovão. Em lenda africana é o rei de Kòso (terra), historicamente foi o Alafim de Oió (reo de Oió). Possuía três esposas: Oiá, Oxum e Obá. É um orixá viril e atrevido, violento e justiceiro, castiga os mentirosos, os ladrões e os malfeitores. Os filhos desse orixá tem como característica serem voluntariosos e enérgico, altivos e conscientes de sua importância real. A primeira grande obrigação do ano é o Amalá de Xangô. Balaneim e Aguanguá são qualidades de Xangôs cultuados na Casa de Xambá.

Bêji no Xambá

Orixás trigêmeos crianças. No sincretismo religioso é representado por Cosme, Damião e Doú. No toque de Bêji é servido um almoço a todas as crianças e adultos filhos da casa e convidados presentes. Há também distribuição de doces.

Oiá no Xambá - Oiá/Iansã

Orixá feminino dos ventos, das tempestades e do rio Níger que em iorubá significa Odó Oiá. Foi a primeira mulher de Xangô e tinha um temperamento ardente e impetuoso e é o único orixá capaz de enfrentar e dominar os eguns (espíritos dos mortos) devido a seu caráter guerreiro. No dia 13 de dezembro, ao meio-dia acontece a louvação a Oiá, toque em reverência a esse orixá, momento no qual todos os yaôs da casa vestem-se com a roupa de seu orixá. Quando Mãe Biu era viva, sentava-se no trono de Oiá.

Os filhos desse orixá são audaciosos, poderosos e autoritários.

Afrequetê no Xambá

Vodum da mitologia fom mais conhecida como Averequete. Vodum de origem daomeana que fora incorporado como orixá pelos iorubás. Até o presente momento, Afrequetê vem sendo cultuado em Pernambuco apenas na Nação Xambá, tido como Orixá feminino. Suas cores são variadas e sua guia é colorida. O mês dedicado a esse orixá é dezembro e o dia da semana é quinta-feira. Assentamento: tigela de louça.

Oxum no Xambá

Orixá feminino do rio de mesmo nome que corre na Nigéria, em Ijexá e Ijebu. Foi a segunda mulher de Xangô e viveu antes com Ogum, Orumilá e Odé. Ligada ao elemento da natureza ouro e também as águas dos rios e das cachoeiras. As mulheres que desejam ter filhos dirigem-se a esse orixá, por isso é também controlador da fecundidade, popularmente associado a beleza e a vaidade.

Na Nação Xambá, oferece-se flores no rio no mês de fevereiro.

Obá no Xambá

Orixá feminino muito enérgico e fisicamente mais forte que muitos orixás masculinos. Segundo uma das lendas africanas teria desafiado, em seqüência, vários orixás entre eles Oxalá, Xangô e Orumilá. Tornou-se a terceira mulher de Xangô, travou grandes rivalidades com Oxum (segunda mulher deste orixá). Mulheres filhas desse orixá possuem atitudes militantes e agressivas, conseqüências de experiências infelizes ou amargas por elas vividas.

O assentamento é uma tigela de louça.

Ewá no Xambá

Orixá feminino associado a beleza.

Na Nação Xambá o assentamento de Ewá é uma panela de barro.

Yemanjá no Xambá

Seu nome Yèyé Omo Ejá significa mãe cujos filhos são peixes. É um orixá feminino das águas dos mares, oceanos ou do encontro do rios e mares. Mãe da maioria dos orixás, representada como uma matrona de seios volumosos, símbolo de maternidade fecunda e nutritiva. É a dona dos oris (cabeças). No mês de dezembro oferecem flores brancas no mar, não se oferece panela para Yemanjá.

As pessoas filhas desse orixá são voluntariosas, fortes, rigorosas e altivas.

Nanã no Xambá

É o mais velho dos orixás femininos, ligado a natureza através do barro e da lama e dos manguezais, é também considerado o orixá da sabedoria por ser o mais velho. Os filhos de Nanã tendem a comportarem-se com a indulgência dos avós, agem com segurança e majestade, suas reações são bem-equilibradas e a pertinência de suas decisões mantêm-nos sempre com sabedoria.

Nanã não sai embaixo de Alá, só faz oborí.

Orixalá no Xambá

Orixá mais velho, considerado pai da maioria dos orixás, representa a paz. No mês de julho, todas as sextas-feiras há o arroz de Orixalá (Ossé), ocasião onde se canta muito para esse orixá. Durante todo o mês de outubro não há na casa obrigação de sangue, apenas inhame e bagre encerrando com toque ao final do mês.

Ritual

O ritual é semelhante ao do Candomblé.

Calendário de festas: Toque de Obaluaiê - 21 de janeiro Toque de Oxum - 11 de fevereiro Toque de Ogum - 29 de abril Toque de Iemanjá - 27 de maio Toque de Xangô - 17 de junho Coco da Xambá - 29 de junho - Aniversário de Mãe Biu Toque de Orixalá - 29 de julho Aniversário do Babalorixá da Casa - Ivo do Xambá - 06 de agosto Dia do Quilombo Urbano do Portão do Gelo - 24 de setembro Toque de Ibeji - 30 de setembro Toque do Inhame - 28 de outubro Dia da Consciência Negra - 20 de novembro Louvação de Oiá - 12:00 - 13 de dezembro Toque de Oiá - 16 de dezembro

Os toques sempre são as 16 horas da tarde. Em todos os toques é servido aos filhos de santo da casa e aos convidados um café com manguzá, que é tradição da casa.

Aos visitantes:

Nação Xambá homenageada

O Governo do Estado de Pernambuco e o Grande Recife Consórcio de Transporte Metropolitano adotaram o nome Xambá para o Terminal Integrado de Ônibus que foi construído próximo ao Terreiro na cidade de Olinda. O Terminal Integrado de Xambá foi inaugurado em agosto de 2013.

Bibliografia

Referências

  1. Mãe Carmem Prisco (21 de dezembro de 2012). «As religiões de matriz africana e a escola». Ação Educativa. Consultado em 27 de maio de 2017 
  2. CACIATORE, Olga. Dicionário de Cultos Afro-Brasileiros (3ª ed.). Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1988.
  3. PRANDI, Reginaldo. Candomblés de São Paulo. São Paulo: HUCITEC, 1991.
  4. «Terreiro Xambá - Portão do Gelo». www.xamba.com.br. Consultado em 27 de maio de 2017 
  5. Jovens da comunidade Xambá, em Olinda, homenageiam o Dia da África
  6. Valéria Gomes Costa (2009). E do dendê!: história e memórias urbanas da Nação Xambá no Recife (1950-1992). : Annablume. p. 123 
  7. Mota, Roberto (1985). Os afro-brasileiros: anais do III Congresso Afro-Brasileiro. : Fundação Joaquim Nabuco, Editora Massangana. ISBN 978-85-7019-082-6 
  8. «Uma Análise dos Exus no Contexto (nação xambá), Tiago Bianchetti» (PDF). Consultado em 9 de janeiro de 2016. Arquivado do original (PDF) em 24 de janeiro de 2016 
  9. O Xambá rediscutido
  10. Our Mothers, Our Powers, Our Texts: Manifestations of Ajé in Africana Literature Por Teresa N. Washingto (em inglês)inglês)
  11. Terreiro de Xambá, no Recife, celebra Oxum, orixá da fertilidade
  12. «Xambá recebe título de quilombo urbano do Nordeste». Consultado em 23 de outubro de 2008. Arquivado do original em 23 de fevereiro de 2008 
  13. Terminal de Integração do Xambá, em Olinda, é inaugurado

Ligações externas